terça-feira, 25 de junho de 2013

Propostas Interessantes Para uma Reforma Política



Os tempos são interessantes. Mais interessantes, inclusive, que este humilde blogue. Não irei aqui discorrer acerca das recentes manifestações que ocorreram em todo Brasil e que, agora, começam a perder força numérica nas ruas. Grosso modo, excluindo-se as anomalias e apropriações tenebrosas por parte de setores obscuros da sociedade, o povo brasileiro deixou clara sua insatisfação com a maneira como os políticos nacionais têm gerido a vida e o erário públicos. Eis, então, minhas sugestões, bem rasteiras, confesso, para uma Reforma Política que vise a contemplar, de fato, o significado de uma res pvblica. Não sou jurista, então, perdoem as possíveis incoerências.

1 - Congelamento de salários, benefícios e gratificações de todos os parlamentares nos níveis estaduais e federais até 2018;
2 - Após 2018, vinculação dos aumentos salariais de parlamentares aos concedidos anualmente aos trabalhadores ordinários, isto é, o aumento percentual concedido a deputados e senadores será o mesmo concedido àqueles que percebem salário mínimo;
3 - Limite máximo de dois assessores por parlamentar;
4 - Fim do foro privilegiado;
5 - Fim das votações secretas;
6 - Fim da verba de gabinete;
8 - Obrigatoriedade, para parlamentares e parentes em primeiro e segundo graus, da utilização de serviços públicos na saúde e educação;
9 - Proibição de 4 eleições consecutivas para uma mesma legislatura;
10 - Congelamento imediato de todos os bens daqueles acusados de improbidade administrativa;
11 - Alienação dos bens de réus acusados de improbidade administrativa cujo processo esteja transitado em julgado, no exato valor do montante desviado mais multa de 10%;
12 - Tipificação de crime hediondo para o crime de corrupção, sendo agravante aqueles que envolvam dinheiro destinado à educação, à saúde e ao transporte;
13 - Inelegibilidade para réus em processos de corrupção transitados em julgado, por um período mínimo de 20 anos.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A casa velha do velho Epaminondas



"Seu" Epaminondas era o morador mais velho daquela rua. Na verdade, "seu" Epaminondas era o morador mais velho do mundo. Naqueles dias, contava com a idade de mil novecentos e oitenta e dois anos. Todos os moradores o conheciam desde pequenos, cresciam e morriam com sua presença nas redondezas. Gerações foram e vieram, e "seu" Epaminondas continuava morando na mesma rua em que sempre morou. Dizia-se que nascera lá naquela mesma casa. Supunha-se, assim, que "seu" Epaminondas tinha aproximadamente a mesma idade de seu lar.
Apesar de ser o residente mais antigo, ninguém conhecia muito bem "seu" Epaminondas. Sabia-se que era um velho bastante simpático e, apesar de já ser avançado em anos, possuía um vigor físico invejável. Todos os dias, podia-se observar o ancião dentro de casa espiando a rua pela janela, sempre em pé. Parecia, assim nessa posição, o quadro mais antigo do mundo. Uma das poucas informações que tinham sobre ele dizia respeito a sua imensa fortuna. O velho Epaminondas era riquíssimo! Essa foi difícil de descobrir, porque o homem teimava em andar com roupas esmolambadas em dias santos e profanos. Por falar nisso, ele quase nunca saía de casa. No máximo, podia ser visto no velho jardim abandonado há séculos, chutando a terra com os pés descalços e unhas compridas. E como descobriram a riqueza do velho Epaminondas? Certo dia, um grupo de moradores curiosos, resolveu que a vizinhança tinha o direito, ou melhor, o dever de saber mais sobre aquele homem de mil novecentos e oitenta e dois anos. A forma mais discreta que encontraram de fazê-lo foi vasculhar o lixo do idoso. Na calada da noite, um punhado de pessoas sequestrou o camburão de lixo de "seu" Epaminondas e, ao abri-lo, encontraram nada menos que cinco milhões de dólares em notas de cem. Nos dias posteriores, a companhia de lixo nunca mais recolheu um resíduo sequer da casa de "seu" Epaminondas. E foi assim que, sem saber, o velho enriqueceu toda a vizinhança. Sua casa, entretanto, continuava miserável.
A casa de "seu" Epaminondas "era uma casa muito engraçada", tinha teto, ao contrário do que diz a canção, mas, em compensação, não tinha nada. De fato, nada mesmo, excetuando-se, é claro, a fundação, as paredes, o teto, uma porta e duas janelas. Essa informação acerca do interior da casa era antiga, datava do início do século dezoito, ocasião em que o velho Epaminondas recebeu Marcos Teixeira, o visitador do Santo Ofício da Inquisição. Dizem que teve receio de ir para a fogueira, porque fora acusado de ser cristão-novo. "Seu" Epaminondas era, como ficou provado, cristão-velho em todos os sentidos. A verdade é que, desde esse dia da visitação, as gerações que se seguiram nunca presenciaram qualquer entrada de objetos dentro da casa, ou ouviram um arrastar de móveis o qual denunciasse a presença de um mísero tamborete sequer. Diziam que "seu" Epaminondas não tinha cuidado com a casa. E não tinha mesmo. Não havia mais pinturas, o reboco estava caindo aqui e acolá, o jardim deixara de ser cultivado há séculos e, como era de se supor, o chão havia de ser de terra batida. Ninguém entendia: com tanta riqueza e tanto vigor, por que o velho não zelava por seu lar?
Naquele dia do ano de dois mil e treze, porém, tudo mudou. Era o dia do aniversário de Epaminondas. Sabiam disso, porque o ancião comentara, em mil quinhentos e cinquenta e três, com um padre jesuíta, o dia de seu nascimento. As pessoas não esperavam nada de especial, porque, como se sabia, ele não saía de casa havia séculos. Isso tudo mudou, quando os vizinhos escutaram o ranger da portão metálico da velha casa de Epaminondas. A rua entrou em polvorosa. Homens, mulheres e crianças correram para a rua, chamaram a rede de TV local, o bispo apareceu, o prefeito veio conferir, e a Câmara de Vereadores decretou ponto facultativo, para que os funcionários, e eles próprios, pudessem conferir o evento histórico. Dizem que nem mesmo a segunda vinda de Cristo causaria tanto alvoroço.
Quando "seu" Epaminondas pôs o primeiro pé descalço na calçada, do Cotinha sofreu um enfarto fulminante e morreu de excitação. Os vizinhos só se deram conta da morte dela no fim do dia, porque dona Cotinha não era lá uma moradora muito querida e era comumente dada a achaques. Como se fosse o dia mais comum do mundo, Epaminondas cumprimentou simpaticamente a multidão que, de pronto, abriu-lhe passagem e saiu. Foi para a feira da cidade. A saída do velho gerou uma expectativa imensa na rua. Que será que ele foi fazer? Para onde foi? Por que decidiu sair justamente no dia de seu aniversário, quando completaria mil novecentos e oitenta e três anos? Será que estava doente? Será que tinha morrido há muitos anos e só descobriu naquele dia e foi se enterrar no cemitério municipal?
Quarenta e sete minutos depois, volta "seu" Epaminondas da feira. Trazia debaixo do braço um pequeno quadro. Era um quadro simples, desses que vendem em qualquer feira livre de qualquer bairro. Era até um quadrinho feio, pode-se dizer. Tratava-se da pintura de um rosto, mas um rosto tão mal pintado, mas tão mal pintado, que algumas pessoas acharam que era uma foto do Anticristo. Era na verdade, um desenho mal feito mesmo.
Novamente, Epaminondas abriu espaço entre a multidão, carregando consigo o quadrinho debaixo da axila. Cumprimentou novamente a multidão, abriu o portão metálico, cruzou o velho jardim abandonado, entrou em casa e fechou a porta. O clima de expectativa era indescritível. De repente, sem nenhum aviso, ouviu-se barulho de marteladas. Além de tudo, "seu" Epaminondas tinha um martelo! Dupla surpresa para a multidão. Pela janela, via-se que Epaminondas pendurava, com muito zelo, o quadrinho feio na parede. Terminado o trabalho, o velho cruzou os braços, observou sua nova aquisição na parede de sua velha casa e sorriu. Naquele dia, "seu" Epaminondas completou mil novecentos e oitenta e UM anos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Trinta Moedas

Por trinta moedas de prata, Judas traiu Jesus entregando-o aos romanos. Uma bagatela, se considerarmos que o messias era o filho de Deus encarnado. Quando desprezou a confiança do Salvador, vendendo-o por uma penchincha, Judas criou o primeiro 1,99. Sempre ouvi, desde criança, que as pessoas tinham um valor, porém nunca desconfiei que a referência significasse dinheiro ou poder.
No Brasil, as minorias são muito valorizadas não por aquilo que se convencionou chamar de "dignidade humana", mas por seu suposto valor de troca frente aos jogos políticos de nossa nação. Quanto vale um direito? Quanto vale a dignidade? Em nosso país, valem muito e valem nada. Em seu livro "O Capital", o filósofo alemão Karl Marx determina que todas as mercadorias possuem dois valores: um de uso e um de troca. Embora a análise marxiana se aplique ao fabrico e circulação de bens utilizáveis, o campo político nacional soube perversamente reificar, ou coisificar, aquilo que deveria ser distribuído de graça e naturalmente. De que outra forma seria possível, então, barganhar, como em uma feira de porcos, com os vendilhões maiores de nossa sociedade?
Como é possível negociar com algo que, a priori, seria inegociável? Em primeiro lugar, tem-se que levar em consideração o valor de uso. Basicamente, dizemos que valor de uso refere-se à utilidade que determinado objeto possui, independente do tempo de trabalho e das relações de produção envolvidas. Aqui, ao contrário do que Marx demonstrou ao se referir às mercadorias produzidas pelo trabalho humano, temos que considerar, a fim de obtermos uma breve noção do valor de uso da dignidade, o caminho histórico traçado com sangue e suor, o qual, para nossa análise, chamaremos de "trabalho socialmente gasto", pois que, com isso, seu valor de uso torna-se incomensurável, não podendo, de forma alguma,  ser quantificável, uma vez que, para aqueles que o produziram e que dele fazem uso necessário, suas qualidades não se equiparam a qualquer outra coisa.
Um determinado objeto com valor de uso vira mercadoria, quando é confrontado com um contexto de economia de trocas. Nesse caso, a mercadoria precisa ser quantificável, a fim de que seja possível sua circulação e câmbio. Dessa forma, o valor nada tem a ver com a propriedade natural da mercadoria, mas nasce de seu confronto com outros valores de troca cambiáveis. Nesse âmbito, recorremos novamente à noção de trabalho humano para podermos identificar paradoxalmente, uma vez que afirmamos acima que nosso objeto de reflexão não possui valor quantificável, e baseados justamente naquilo que determina, neste caso, o valor de troca, ou seja, o tempo de trabalho socialmente empregado na produção de uma mercadoria (no caso, a dignidade), uma pálida noção daquilo que é, por suas características históricas de construção, incalculável.
Posto isso, a priori, ninguém pode ser capaz de estipular um valor seguro para uma mercadoria cujo valor de uso e o de troca estão além da determinação de preços, uma vez que sua produção e circulação extrapolam diversos contextos históricos que indeterminam a precisão de seu valor.
No Brasil, surpreendentemente, a dignidade tem preço, que oscila, como a batata e o tomate, com a conjuntura: pode custar uma CPI contra o Ministro-chefe da casa civil, ou o apoio político em troca da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. É muita perversidade apreçar aquilo que não deveria ter preço. Quanto custa o amor? Ou a alegria? ou um perdão? Ou um filho? Ou um pai?
Judas, na verdade, foi um esperto, porque, para livrar a consciência de tais reflexões, determinou logo uma quantidade precisa de dinheiro pela vida do filho de Deus. Ninguém pode culpá-lo de dissimulação, nem de falta de empenho capitalista (cerca de 1800 anos antes do surgimento do capitalismo ocidental). Por trinta moedas, Judas vendeu Jesus Cristo. Por favores, nossos políticos têm vendido nossa dignidade.

domingo, 13 de maio de 2012

Farofa de Cuscuz (conto inacabado)

- E então, doutor? Nasceu? É menino? É menina?
- É farofa de cuscuz.
- (...) Como?
- Sua esposa deu à luz uma linda travessa de farofa de cuscuz, Seu Jorge. O parto foi um pouco demorado, porque a enfermeira-chefe espirrou na hora em que a criança nasceu, e tivemos que juntá-la com uma vassoura e uma pá. Mas não se preocupe, que agora eles passam bem: sua mulher, o bebê e a enfermeira, que é alérgica a milho.
- É... O importante é ter saúde, não é, doutor?

Deram ao infante o nome de Emilho, com "lh" mesmo, porque acharam que esse seria um nome mais apropriado, dada as circunstâncias peculiares de seu nascimento. Demoraram a saber se era menino ou menina, mas, por causa de um pedaço de bacon, julgaram um pênis e optaram por garoto. No futuro, se percebessem que erraram no gênero, chamariam-na Emilha de Sabugosa, em homenagem aos dois personagens de Monteiro Lobato, afinal a música dizia "boneca de milho é gente, sabugo de milho é gente...". Farofa de cuscuz também é gente! Quem haveria de contrariar um clássico da literatura e da televisão?
Os problemas de Emilho, como vocês puderam perceber, começaram no momento do nascimento. Quando foram batizar a criança, notaram que ela inchou um pouco, quando o padre lhe jogou água benta. Os pais não reclamaram, pois foi um sacrifício convencer o cura a realizar o sacramento, uma vez que não constava, no cânone, que acompanhamento culinário merecia batismo.
Era uma criança muito quietinha, porém assaz dispersa. Dispersa mesmo, no real sentido da palavra. Bastava um vento mais forte, que lá ia Emilho para todos os lados. Certa feita, a empregada o aspirou por engano e foi um verdadeiro sacrifício retirá-lo do saco do aspirador. Na escola, apelidaram-no de Broa, Broa de Emilho, porque sabe-se que crianças podem ser maldosas quando querem ser. O maior desejo de seu pai era levá-lo à praia, mas, desde que ele caiu na areia e tiveram que peinerá-lo durante toda a tarde, seu genitor desistiu da ideia desses finais de semana idílicos e contentava-se em encher meia cuscuzeira de água e deixá-lo lá, no banho-maria, por pouco mais de duas horas. A mãe sonhava amamentá-lo, mas o pediatra e um chef de um restaurante árabe disseram que não cairia bem farofa de cuscuz com leite. Se fosse apenas cuscuz, até que seria aconselhável...
Na adolescência, a despeito de seu bom comportamento

domingo, 6 de maio de 2012

10 músicas para roer no fim de um relacionamento (Final)

5. Roberto Carlos - As canções que você fez para mim. De que adiantam essas campanhas demagógicas, se as canções que aquela miserável fez para você, não fazem mais o menor sentido? O rei Roberto já escreveu sobre taxistas, caminhoneiros, gordinhas, mulheres de quarenta. Ele é praticamente um Voltaire, um Diderot, um Rousseau, enfim, um enciclopedista da música popular brasileira. De tudo, ele fala e entende. Desta vez, o rei decidiu escrever uma música sobre as músicas que a amada fazia para ele. Essa canção é um tiro no ânus, porque traduz a "solidão, fim de quem ama", nos versos "eu acho que você já nem se lembra mais". Aperte o "play" e tente sobreviver.



6. Vanessa da Mata - Música. Ok, ok. Admito: estou apelando. Essa música é avassaladora, porque a voz é suave, e a melodia  nos traz, à memória, aquela velha ciranda do anel que "era vidro e se quebrou". É sobre isso que a música fala: tudo fenece, tudo se esvai, por mais sólido que seja. Exceto, é claro, as lembranças que, agora, são dolorosas. Vanessa, sua linda, espero que você morra lentamente. Cuidado, que essa canção é arma de destruição em massa.



7. Leoni - Os outros. Amor que não vai embora pior que espinha purulenta em dia de festa, pior que ranho em nariz de palestrante. O pior é que ninguém se compara ao objeto de nosso amor, por mais cretino(a) que ele/ela tenha sido. Até defeito a gente começa a comparar, esquecendo-se de que ninguém é igual, exceto na morte. E essa música engana, viu, minha gente? Não sei se foi Guatarri ou Deleuze (Edson, corrija-me, por favor) que disse que "nosso grande amor é sempre o penúltimo amor", ou seja, nenhum amor será o derradeiro (a não ser, é óbvio, aquele que antecede o fim da vida. Mas, assim como existe a licença poética, existe a licença patética, que permite que pessoas apaixonadas digam asneiras já desmentidas pelos pós-estruturalistas franceses.



8. Reginaldo Rossi - Garçom. O rei do brega, de fato, não é brega. Brega é corrente de prata featuring bermuda Saka Praia. Reginaldo Rossi é genial, minha gente. Ele transforma um bêbado desgraçado, jogado em uma mesa de bar, abrindo a própria intimidade para um desconhecido e, certamente, banhado em vômito e na própria miséria, em uma música belíssima. E digo mais: ele desmonta o estereótipo do machão, que não sofre, que é invulnerável. Reginaldo Rossi é desconstrução, meu povo! E isso é muito foucaultiano. (Foucault, como tudo aquilo "made in France", não pode ser brega).



9. Roxette - Spending my time. Direto da década de 90, para a infelicidade em que se encontra sua vida neste exato momento. Essa música é uma contradição, porque o ritmo dela é lento, devagar, mas, ao mesmo tempo, ela diz "spending my time watching the days go by". Trata-se daquela depressão que você sabe que a vida te atropela, porém você não dá a mínima cagada para isso, porque está ocupado(a) demais não fazendo absolutamente nada!



10. Alanis Morissette - Torch. Morra, Alanis, MORRA! Não deem o play! É uma cilada, Bino! Não há coração que aguente esse lamento digno do livro bíblico de Jó. Torch é a caixa de Pandora piorada, porque, depois de tantas lembranças, não haverá o feliz pássaro verde ao final. Pronto! Exemplo perfeito: já viram um palito de fósforo queimado? É uma desolação só: cliquem aqui. Depois de um gato morto, um fósforo queimado é a coisa mais desoladora do mundo, porque passa a ser exatamente o oposto daquilo que um dia foi. Pior: essa nova não-coisa, exatamente por sua não-coisisse, faz-nos lembrar o tempo todo, para nossa tristeza, a coisa anterior, em todo seu esplendor, que agora já não existe mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

10 músicas para roer no fim de um relacionamento (parte I)

Todo mundo já sofreu por amor. Que atire o primeiro CD de Adele aquele que nunca sentiu uma pontada de angústia por perder aquele ou aquela que considerava o grande amor de sua vida. Tolstói disse, em Anna Karienina, que "toda família feliz é igual, mas toda família infeliz é infeliz à sua maneira". No amor, todo sofrimento é gêmeo univitelino. De repente, após o fim, aquele seu namorado barrigudo, bronco, sem futuro e vesgo torna-se a pessoa mais querida do mundo. A dor da perda do ser amado é atroz, porque a pessoa morreu, mas continua viva (não, não estou falando de zumbis). Morreu, porque não faz parte da sua história, não compartilhará intimamente seus momentos de alegria e tristeza, não farão mais planos juntos. Viva, porque ela continua por ali, serelepe, seguindo com a própria vida, sorrindo, frequentando academia, bares e boates SEM VOCÊ. Nessas horas, o jeito é afogar as mágoas com os amigos, no trabalho, no chuveiro, no sorvete, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Pensando em facilitar a vida de nossos leitores e leitoras, a equipe de Tempos Interessantes, composta apenas por mim, decidiu fazer uma coletânea de dez músicas infelizes, compostas naqueles momentos de miséria humana, quando o amor acaba e fica apenas a amargura de uma existência infeliz e sem sentido. Ei-las, então:

1. Qualquer canção de Adele. Em primeiro lugar, ela, a rainha da depressão, a arauto de dias negros, o corvo das más notícias, a coveira do amor. Adele encanta, porque é sem vergonha. Ela sofre, ela chora, ela se descabela, ela pede para voltar, ela diz que a vida acabou. Adele consegue traduzir com exatidão todos os sentimentos que pipocam após o término de um relacionamento: tristeza, mágoa, raiva, frustração, desesperança, infelicidade e por aí vai... Qualquer música de Adele, vejam bem, QUALQUER música, versará, de uma forma ou de outra, sobre aquele/aquela filho de uma jumenta que te deixou na merda completa. Escutar Adele é, com certeza, poupar o tempo de traduzir em palavras os dias negros que o fim de seu relacionamento trouxe.


2. Dido - White flag. Dido não tem a melhor voz do mundo. Vocalmente, ela nunca irá surpreender você. Não há agudos, não há vibratos, não há variações de tom, mas há muita tristeza e lamentação. Nessa música, há o amor que ficou depois do cretino ou cretina ter lascado sua vida. É uma canção sobre a capacidade de um cara-de-pau, depois de ter estragado tudo, chegar até você e dizer que ainda te ama. Veja bem, se você é a vítima indefesa, a música não serve para você, mas, se você é a pessoa que bagunçou tudo e está arrependida do que fez, pode escutar à vontade e se lamentar pelo dia em que nasceu e se tornou um completo inepto para relacionamento e as coisas do amor. E pode ter a certeza de que teu ex realmente deseja que você "afunde com esse navio".


3. Abba - The winner takes it all. Quando as primeiras notas do piano começam a tocar, você já sente vontade de pular da ponte. "The winner takes it all" versa sobre o jogo do amor. Como toda competição, há vencedores e perdedores. Essa música, é óbvio, é cantada por um infeliz perdedor que, certamente, não estará na próxima temporada de Glee. Não se trata, porém, de um bad loser. O cidadão ou cidadã admite a derrota, aceita o fim, veste a capa da vergonha e humilhação, curva-se ante o fato consumado do fim. É uma música para ser cantada quando sua auto-estima não vale R$ 2,00 no mercado de pulgas ou na liquidação de garagem.


4. Jacques Brel - Ne me quitte pas. "Ne me quitte pas" é o fim. É o último suspiro do moribundo, é a porta dos desesperados, é o discurso do advogado da CNBB durante a sessão do STF sobre o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo, é o último "continue" do jogo de vídeo game. É, enfim, a última tentativa do infeliz que está prestes a perder o amor de sua vida. Tais constatações são patentes, porque a pessoa promete mundos e fundos para a amada que se vai pela porta da frente, certamente levando até as panelas da casa. Não sei vocês, mas consigo imaginar o sujeito agarrado à barra da saia da amada, repetindo abobada e desesperadamente "ne me quitte pas", enquanto, indiferente, a cretina vai embora.


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Aguardem a próxima postagem com as seis últimas canções que farão os desprezados cortarem os pulsos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Do Jardim e Outros Demônios


José se encantou por Maria desde o primeiro momento em que pousou a vista naquele belo rosto. Diz que a viu, mas não a enxergou muito bem, porque José tinha sérios problemas de visão. Foi, então, amor à primeira cegueira. Vieram, assim, as borboletas. Aqueles insetos conhecidos de todos os apaixonados e que teimam em fazer casulos em seus estômagos. José não podia tossir, que lhe saía voando uma borboleta pela boca. Era muito comum que as pessoas, ao conversarem com José, saíssem catando asas dos cabelos e tirando aquele pozinho do rosto.

Um dia, José e Maria se beijaram. Trocaram borboletas, na verdade, uma vez que Maria também amava José. Foi um dia deveras inesquecível, pois a amada dissera-lhe que ele tinha orelhas de velho. Eram umas orelhas um tanto grandes, de abano mesmo. Aquela observação, entretanto, não foi um insulto, porque Maria achava que as orelhas de velhos eram, de fato, as mais bonitas. Beijaram-se pela primeira vez. Começou, a partir daí, o fim de José.

Conviver com as borboletas não era difícil, mas, agora, havia também as flores. Cada passo dado fazia brotar um lindo jardim florido. José, que era professor, precisou pedir licença, porque os funcionários da limpeza estavam exaustos de, todos os dias, tirarem imensos jardins das salas de aula. A casa de José virou uma espécie de Campos Elísios. Grande ironia, já que, segundo a mitologia grega, é lá que habitam as almas dos bondosos de coração. A diferença era que José estava muito vivo.

José fazia brotar o jardim, Maria, por conseguinte, era a jardineira. Era ela a razão de ser de todo aquele esplendor de rosas, flores, plantas e borboletas. O amor de Maria era o terreno fértil onde surgia a vida engendrada pelo coração de José. De repente, o universo de José virou um imenso mundo perdido, um jardim secreto, mil vezes mais bonitos que aqueles da Babilônia. Agora, não havia apenas borboletas e flores. O amor de Maria e suas constantes visitas deram-lhe um Éden de presente. Aquele era o mundo a que pertenciam os dois amantes. Não havia, em lugar conhecido, terra mais bonita. José, agora, dedicava-se apenas a esse jardim, devotamente. Era fruto de seus sentimentos, era a tradução da força que fazia pulsar sua alma.

Um dia, Maria não apareceu como de costume. José esperou sentado, próximo a um riacho que brotara dias antes. José esperou, mas Maria nunca mais apareceu. O mais curioso é que, a despeito da ausência, o jardim continuava a brotar com toda fúria. Nada morria, não caía uma única folha ou flor. As borboletas multiplicavam-se na mesma medida em que se multiplicavam os dias sem Maria. Em certo ponto, José não podia mais se locomover. Estava se afogando na vida que rebentava de seu amor pela ausente Maria. Os amigos tentaram resgatá-lo, mas, por mais que procurassem, não encontravam o pobre apaixonado no meio de tanda vida. Finalmente, após muito esforço, José conseguiu se movimentar apenas o suficiente para ficar deitado. Sufocado por tanto amor traduzido naquele jardim, finalmente, expirou e morreu.

domingo, 21 de agosto de 2011

O funk e a libertação feminina


Catem esta letra de um funk carioca:

Comece a me chupar
Metendo pra lá e pra cá

Comece a me chupar [2x]
Depois come o meu cuzinho
Só pra me fazer gozar
Comece a me chupar [2x]
Depois come o meu cuzinho
Só pra me fazer gozar

E vai chupando, e vai chupando,
e vai chupando, vai chupando, vai chupando, chupando, chupa gostoso!
E vai chupando, e vai chupando,
e vai chupando, vai chupando, vai chupando, chupando, chup.. que isso!

Agora para! E vai metendo..
E vai metendo, vai metendo, vai metendo e vai metendo, mete gostoso!
Agora para! E vai metendo..
E vai metendo, vai metendo, vai metendo e vai metendo, vai metendo!

Eu ja to louca, não to mais aguentado
Esse cara é pirocudo, ele tá é me rasgando
Eu ja to louca, não to mais aguentado
Esse cara é pirocudo, ele tá é me rasgando

Não discutiremos aqui o valor estético da obra. Não cabe, nesta discussão, valores artístico a respeito de arranjos, melodia, estrutura das rimas, entre outros. Vamos nos ater ao seu conteúdo sociológico, aos ditos e não-ditos.

A primeira coisa que nos chama a atenção é o fato de que a letra, pululando de palavrões e referências ao ato sexual, ressaltando a animalidade com que ele é praticado, é cantado por uma mulher. Podemos dizer que, historicamente, o caminho percorrido pelo funk, para chegar ao balaio de palavrões que é hoje, é relativamente curto. No começo da década de 1990, presenciamos esse estilo musical com uma função majoritariamente de cunho político. O funk era transgressor na medida em que contestava o sistema político-econômico imposto pelo capital. Era, de fato, uma espécie de grito dos excluídos, música feita por pobres para pobres. Em princípios do século XXI, o Bonde do Tigrão inaugura, nacionalmente, um tipo de música mais despolitizada a qual caiu, quase que instantaneamente, na lógica capitalista de mercadorização. Nessa nova expressão do funk, a cultura política dá lugar à cultura do sexo. Temos, assim, um grupo de homens e mulheres que expressam, a despeito de suas condições econômicas de origem, toda uma carga sexual que, outrora, era mascarada pelas letras e poesias engendradas pelo amor do tipo romântico. O tempo, entretanto, ainda não era das mulheres, apesar de, algumas delas, arriscarem uma ou outra canção.

Nessa qualidade de música, a mulher aparece como objeto do desejo sexual do homem. A lógica machista expressa sua dominação por meio da submissão sexual da mulher. Até aqui, nenhuma novidade. A diferença é que, agora, o funk passa a anunciar, para o público, práticas que ousavam se revelar apenas no âmbito da alcova, do privado. Entretanto, por mais que o funk, na primeira metade da década de 2000, reproduza tal lógica da dominação masculina, a revolução já desponta. Na música "um tapinha não dói", que gerou protestos feministas por todo o Brasil, um bando de marmanjos ordenam que uma mulher faça poses sensuais para eles. A surpresa acontece no refrão: uma voz feminina diz, em bom som, que "um tapinha não dói". Embora dominada por homens, naquele momento, a mulher anuncia sua sexualidade! Ainda que seja para dizer que gosta de um tipo de prática sexual que muitos julgam humilhante, o feminino finalmente se expressa. A funkeira Tati Quebra-Barraco, então, nessa mesma época, completa a dialética sexual do funk. Uma das primeiras mulheres a anunciar a posse de sua sexualidade, Tati Quebra-Barraco virou revolucionária.

O mais impressionante, e que, obviamente, chama-nos mais a atenção, é que essa libertação sexual feminina veio justamente das camadas mais carentes da população. Constantemente acusados de retrógrados e conservadores, os pobres dão um soco no estômago da pretensa revolucionária classe média e da inteligentsia. Ao reproduzir a lógica da dominação masculina, o funk carioca abriu as portas para um outro tipo de revolução: a sexual. Ironicamente, como previu Marx, mas agora com sexo no lugar da exploração capitalista, o povão comandou a revolução. Era de se esperar que, inevitavelmente, a mulher passaria de agente passivo para ativo na declaração de sua sexualidade, posto que, quem tem voz, fala.

No início da década de 2010, os discursos femininos, no funk, estão saturados de referência ao sexo. É como se fosse uma manifestação histérica de uma sexualidade que foi reprimida durante séculos e que, agora, explode a plenos pulmões (e por que não dizer a plenas vaginas?). Valesca Popozuda, expoente desse tipo de funk sexualmente obsessivo, longe de merecer os títulos de promíscua, vagabunda ou prostituta, é, na minha opinião, a salvadora das mulheres. A genialidade de Valesca reside justamente na quebra da imagem paradigmática da mulher tradicional. Valesca Popozuda desponta, finalmente, para o bem do feminino, como a anti-Nossa Senhora. Que me perdoem os católicos, mas Maria é a imagem mais perversa e opressora do feminino. É a mulher que, milagrosamente, sem exercer sua sexualidade, torna-se mãe. É a mulher que, sem a necessidade do sexo, que nunca a pertenceu, transfigura-se na imagem ideal da mulher: submissa, sempre intercessora, porém nunca no comando, resignada, melacolicamente gentil, prendada e, principalmente, afastada do sexo. Valesca Popozuda, embora não literalmente, como fez certo pastor da Igreja Universal, chuta a santa. A mulher, agora, é dona da própria vagina, comanda o próprio gozo, escolhe seu parceiro, exerce livremente sua sexualidade, domina o macho, ridiculariza-o, zomba de sua sexualidade. A mulher, finalmente, liberta-se do jugo masculino do exercício de sua sexualidade mais plena.

A despeito de nossa natureza machista, que sempre procuro domar em mim, as garotas funkeiras tomam a linha de frente, muitas vezes de maneira mais eficaz que certas feministas, no espaço público que é devido à mulher. Embora muitos argumentem que o combate principal trava-se no campo da política, os tempos hodiernos mostraram que o campo fértil das revoluções brota da e na cultura. Oprimidas pelo sexo, libertas pelo sexo. Vida longa à Valeska Popozuda e a sua vagina, pois ambas ousaram, sem vergonha (isso mesmo, sem o hífen), desafiar os falos dominantes.
Despeço-me com um vídeo que traduz, de maneira mais fiel e menos intrincada, o que quis dizer com esse texto. Aproveitem:

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O mito da solteirice como bem supremo

Hoje é dia do solteiro. Seria um dia como outro qualquer, se não fosse por uma mensagem que vi no facebook. Segue a danada, na íntegra:

‎S.ociedade
O.rganizada
L.ivre de
T.raição e
E.rros, Total
I.ndependência, sem
R.emorsos ou
O.brigações

Quem corrobora com esse pensamento tem, para mim, uma opinião muito equivocada, não a respeito do ser solteiro, mas do se relacionar. Eu não sou a pessoa mais namoradeira do mundo, é verdade. Tive apenas dois relacionamentos com tempo relativamente duradouro. Eu, entretanto, tenho a mania de pensar sobre "a vida, o universo e tudo o mais" demasiadamente. Também descobri que a experiência de vida alheia é uma fonte infinita de aprendizado tão ou mais rica que a nossa própria.

Há quem acredite que começar um relacionamento signifique necessariamente a perda da liberdade, da individualidade e, pior, da própria identidade. Parece-me que a acentuação do individualismo liberal escorreu da economia e da filosofia política para a vida afetiva. Há muitos textos na Sociologia dedicados ao estudo sobre confiança, laços afetivos e relacionamentos nos tempos atuais, e minha afirmação anterior poderá ser corroborada por esses textos. Nenhum relacionamento, absolutamente, poderá reivindicar a posse integral do outro. Não é uma questão de duas metades que se complementam, mas de dois inteiros que se administram. Quando duas pessoas decidem iniciar uma relação, estão ali dois indivíduos independentes, que carregam as próprias experiências, visões de mundo, valores e vontades. A vida a dois é, necessariamente, a convivência pacífica e profícua desses dois universos que podem, ou não, complementarem-se. Quem perder a liberdade em um namoro ou casamento, por exemplo, nunca teve um companheiro de fato. Teve patrão, chefe ou senhor.

Não estou falando que se deve seguir a vida ignorando o outro, como se apenas o seu universo fosse o mais importante ou aquele que sobrepuja os demais. Aqui, então, é imprescindível o uso da razão, porque nem só de sentimento viverá uma relação a dois. Tenta-se um constante e incansável administrar de vontades, contradições e planos. Relacionar-se é a arte de fazer cruzar caminhos que, de outra maneira, seriam divergentes. O motor da história dos relacionamentos é, então, no sentido marxista mesmo, uma luta, um conflito não entre classes, mas entre personalidades. Mas, ao contrário do modelo marxista de desenvolvimento da história dos homens, enquanto existir amor, as contradições não devem gerar o fim, mas crescimento. Não é balela quando dizem que as adversidades amorosas podem fazer crescer. Elas podem e devem.

Engana-se quem pensa que liberdade rima com solteirice. É possível se relacionar e, ao mesmo tempo, ser livre de traição, dependência e obrigações. Todo relacionamento, na atualidade, começa voluntariamente e voluntariamente deve seguir em frente, óbvio. Conheço uma mulher que, durante 14 anos, foi tiranizada pelo marido violento. Ela foi sugada, explorada, marginalizada, agredida, ameaçada e humilhada sistematicamente durante mais de uma década. Embora a burocracia dizia que ela era casada, eu não consiguia parar de pensar que ela era, de fato, uma escrava. Toda forma de amor deve primar pela liberdade, pois é somente livre que o indivíduo tem espaço para ser voluntário, e todo sacrifício requer incontestavelmente a vontade espontânea de sacrificar. Sim, amor também é sacrifício. Quando se fala em sacrifício, pensa-se em uma troca desvantajosa. Devo lembrar que, em todas as sociedades cujo ritual so sacrifício era o mote de alguns ritos religiosos, a parte sacrificada era compartilhada entre aquele que oferecia e aquele que recebia. Não era, de forma alguma, uma via de mão única entre homem e divindade. Era, acima de tudo, uma relação de permuta entre um e outro. É esse tipo de sacrifício que deve existir nos relacionamentos.

Repito: quem acredita que se relacionar é perder a liberdade e a individualidade nunca teve namorado/namorada, mas senhor. Em um relacionamento, só há um senhor: o respeito. Respeito às liberdades e às individualidades, respeito ao amor que se cultiva e se colhe em retorno, respeito às limitações. Quando se respeita, todo o resto se acrescenta naturalmente depois.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O fim dos olimpianos


Um dia, Zeus encontrou, na cabeceira de sua cama, um bilhete. Reconhceu imediatamente a grafia de sua esposa-irmã Hera. Havia ali uma frase curta: "Fui embora. Adeus.". Ao passar os olhos por aquela linha, ribombou, nos céus, os mais altos trovões e choveram raios em todas as direções. Para Zeus, o motivo do abandono era claro: sua mulher se cansara de suas inúmeras traições. Conhecia o gênio da esposa. Sabia que ela era capaz de matar, perseguir, seqüestrar e atormentar suas amantes e seus filhos ilegítimos, mas jamais passou por sua cabeça divina que Hera abandonaria o Olimpo. Consternado, mandou chamar Hermes e ordenou que este encontrasse sua mulher e a trouxesse de volta. Horas depois, o deus-mensageiro retorna sem sucesso. Não encontrara a divindade. Zeus, então, subiu no cume do monte, do mesmo lugar em que costumava observar as belas mortais, apurou a vista e varreu a face da terra com o olhar. Não havia sinal algum da mulher. Consternado, solicitou a presença de seu irmão Hades. O senhor do mundo inferior estacionou a bela carruagem puxada por cavalos negros em fila dupla, tamanha era a urgência do chamado, tratando de deixar o pisca-alerta ligado, com receio da justa Atena aplicar-lhe uma multa. Perguntado se, por ventura, a irmã-cunhada se encontrava no submundo, respondeu que não. Não havia sinal da deidade sequer no Tártaro.

O rei dos deuses pediu uma audiência geral. A extraordinariedade do pedido era tamanha, que até as fúrias e as moiras estavam por lá, com o manto do destino, a fim de procurar, no entrelaçamento dos fios, o paradeiro da senhora do Olimpo. Cloto, Láquisis e Átropos não encontraram o menor vestígio de Hera. Zeus, então, ordenou imediatamente a suspensão de todas as atividades a que os deuses estavam submetidos e disse que tratassem de encontrar a esposa a qualquer custo.

Naquele dia, o mundo parou. Deméter suspendeu as colheitas, Atena de olhos glaucos não presidiu julgamentos, Apolo não passeou na sua carruagem solar, que comprara de Hélio tempos antes a um preço de bagatela: segunda mão, único dono. Mesmo Pã, que não era bem visto entre os olimpianos, participou ativamente da busca. A virginal Ártemis pôs todos os animais da floresta para farejar algum possível rastro da deusa, em vão, indisponibilizando, assim, a caça aos homens. A mando de Zeus poderoso, Hefestos forjou uma imensa lupa com a qual procurava minunciosamente sua querida mãe por sobre a face da Terra. Ares e Afrodite, que viviam em constante fornicação precisaram atender o chamado. Naqueles dias, portanto, não se fez amor e tampouco as guerras. Mediante todos esses esforços inúteis, foi enviado, por Hermes, mensagens aos deuses de outras terras, a fim de que avisassem imediatamente ao Olimpo sobre o paradeiro de Hera. Os panteões egípcio, hindu, africano e persa se prontificaram imediatamente em auxiliar na busca. Infelizmente, sem sucesso algum.

Amofinado em seu trono celestial, o cronida Zeus estava mortificado de tristeza e frustração. Decidiu, assim, tomar uma medida enérgica: deixaria ele mesmo o Olimpo e passaria a buscar incessantemente sua esposa de olhos bovinos. Preparou-se para a longa viagem: armou-se com os raios que Hefestos fizera, armazenou grande suprimento de vinho servido pelo belo e efeminado Ganimedes, vestiu sua melhor túnica bordada por sua filha querida Atena e partiu. Passaram-se anos e anos de busca incansável pelos mais remotos lugares do planeta. Conta-se que, por esses tempos, Zeus quase descobre as Américas. Não tinha jeito, era preciso regressar e esperar que o coração da senhora do Olimpo se acalmasse. Com esse pensamento, a divindade retornou.

O lugar que o cronida reluzente encontrou estava estranho. No caminho para o Olimpo, observou silêncio estranho e quietude assaz. Isso não era comum principalmente depois que Dionísio, o deus do vinho, passara a habitar o panteão. Foi então que, com pânico nos olhos, Zeus avistou uma figura desconhecida sentada muito querida em seu trono.

- Quem é você e o que faz aqui?
- Sou Jesus de Nazaré, rei dos reis e senhor dos senhores. - respondeu serenamente a figura.
- Quem te deu permissão de sentar no trono do deus dos deus?
- Em primeiro lugar, colega, EU sou o deus dos deus, apesar de ser o único deus. Por excelência, este trono é meu. Meu pai o deu a mim.
- E quem é seu pai, por acaso? Não lembro de algum irmão ou filho meu parir pessoa tão orgulhosa.
- Olha, camarada, aí você complicou a conversa. Meu pai sou eu, na verdade. O Espírito Santo, que também sou eu e meu pai, engravidou, engravidamos, melhor dizendo, minha mãe, e eu nasci. Eu sou meu pai, entendeu? Pode falar diretamente comigo, então.
- Quanta petulância! - vociferou Zeus.
- Petulância ou não, este trono agora me pertence. Já enxotei toda aquela mundiça barulhenta que morava aqui antes. E também não adianta ir para o mundo inferior, que eu também desci até lá e dei uns bons cascudos num homem mau-humorado. Sou dono de lá também. Olha aqui a chave da casa para provar. O lugar já está reservado para Satanás, e o contrato só vencerá daqui a uns milhares de anos. Se quiser, espere na fila.

O homem barbudo falava com tanta autoridade, porque falava, segundo ele, por três, que Zeus não teve alternativa a não ser girar sobre os calcanhares e ir embora. E assim terminou o reinado de todos os deuses gregos sobre a terra.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Tempo de (re)nascer

Prezados leitores e leitoras,

Após meses de ausência, preciso confessar-lhes algo de suma importância. Estou sem inspiração. Juro pelas nove musas filhas de Zeus poderoso. Parece-me, e tenho quase certeza, que funciono sob pressão. Então, caríssimos e caríssimas, gostaria de que vocês me dessem os motes de meus escritos. O esquema funcionará da seguinte forma: todo sábado, porei uma pequena enquete com 4 opções de temas, a fim de que a mais votada sirva como ponto de partida para um conto, crônica, dissertação ou narração. No domingo à noite, a alternativa mais escolhida se tornará texto até 48 horas após o resultado.

Espero a participação de todos e todas.

Atenciosamente,

Moisés.

P.S.: As opções, como dito acima, estarão no formato de enquete, no lado direito do layout do blogue.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

2011

Prezados leitores e seguidores,

Como puderam perceber, o blogue ficou temporariamente desativado. Felizmente, uma de minhas resoluções para 2011 é dar continuidade aos meus escritos. Compromote-me com vós outros (adoro esse arcaísmo bíblico) a retomar as atividades literárias em fevereiro deste ano. Enquanto isso, fiquem com essa linda música de Regina Spektor, a qual se enquadra bem neste contexto:


Grande abraço.

Ah! Especial agradecimento a Dora Limeira, uma das mais ilustres leitoras e incentivadores do meu blogue. Querida Dora, suas palavras são como o orvalho que desce sobre a terra seca, fazendo dela verdes pastos. Muito obrigado.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Correio da Hélade

Sem atendimento, mulher dá a luz em estábulo
O pequeno Jesus e sua família posam para nossa reportagem.
Nasceu, na madrugada de ontem, 25 de dezembro de 1, o filho do carpinteiro José e da dona de casa Maria. Esse seria apenas mais um nascimento, se não fosse emblématico do caos na saúde pública que assola nosso país. O pequeno Jesus, como foi batizada a criança, teve que vir ao mundo em um estábulo, pois o casal não conseguiu atendimento médico em nenhuma das maternidades de Belém. Segundo o casal, eles estavam na cidade, a fim de se cadastrarem no censo. José, que sobrevive de prestação de serviço, e sua esposa Maria peregrinaram de hospital em hospital até que a criança veio ao mundo. "Disseram-nos que não havia leitos", afirmou o chefe da família.

Malaquias Ben-Hur, secretário de saúde nomeado pelo Império, disse que a situação está periclitante: "Faltam leitos, os médicos são mal-remunerados e há muitos anos não há concurso público para provimento de vagas", afirmou o secretário. Procurado por nossa reportagem, o representante da capital do Império relatou que as verbas para a saúde aumentaram em trinta mil talentos de ouro somente neste ano e que o nascimento da criança, naquelas condições, havia sido um acontecimento fortuito. Desde que fora criado, o SVS, Salute Vnicvs Sistemi, tem atendido a cerca de 500 mil pessoas mensalmente.

domingo, 18 de julho de 2010

Nova seção: Correio da Hélade

Inauguro aqui mais uma seção em Tempos Interessantes. Correio da Hélade será uma paródia da grande imprensa, espetacularizadora de tragédias pessoais por onde grassam muitos Brunos, João Hélios e Isabelas. A intenção é popularizar, por meio do linguajar superficial das páginas policiais e colunas sociais, os grandes conteúdos das tragédias gregas e, posteriormente, dos fatos históricos de maior relevância. Espero que gostem. Eis, então, nossa primeira reportagem:
Policial: Tragédia e incesto em Tebas
Na foto: Édipo (esquerda), pivô da tragédia, trava diálogo com a esfinge. Imagem de arquivo.

Foi encontrado, na tarde de ontem, o corpo da rainha tebana Jocasta. Segundo informações, a rainha teria se matado após descobrir que casara com o próprio filho. Uma fonte da perícia, que não quis se identificar, informou que Jocasta foi encontrada enforcada em seu quarto e que havia manchas de sangue nos lençóis. Ainda segundo a referida fonte, seu marido foi o primeiro a encontrar seu corpo já sem vida. Desconfia-se que o sangue no quarto seja do rei. Segundo o delegado designado para o caso, Kratos da Silva, "não havia sinais de luta, e o sangue estava relativamente fresco, se comparado com o horário da morte da rainha". A polícia local apreendeu, nas imediações, um cego. Tirésias, como é conhecido, afirmou que não viu nada, o que as autoridades constataram obviamente ser verdade. A testemunha, entretanto, disse que sabia os reais motivos da tragédia e, após prestar esclarecimentos ao escrivão Sófocles, foi liberado pela polícia.

Segundo informações das autoridades locais, baseadas nos depoimentos de Tirésias, a testemunha não-ocular, o suicídio se deu após a rainha tomar conhecimento de que seu marido era, na verdade, seu filho, outrora rejeitado pelo pai e ex-marido da vítima. Édipo, o marido-filho, ainda não foi encontrado para prestar esclarecimentos. Suas três filhas-irmãs também estão desaparecidas, e suspeita-se de seqüestro ou coação. Procurada por nossa reportagem, a família real apenas afirmou que o acontecimento não abalaria o governo de Tebas e que a sucessão do trono ficaria a cargo de Creonte, irmão da rainha morta e, por hora, regente de Tebas. Os filhos homens do casal se recusaram a gravar entrevista. A polícia espera esclarecer completamente o caso em breve.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Eleições 2010


Com a proximidade do pleito que elegerá @ ocupante do cargo máximo do executivo brasileiro, Tempos Interessantes resolveu deixar claro que posicionamento político tomará e os motivos que nos levaram a tal escolha. Eis nossas razões:


1 - Dilma é a candidata de Lula. Melhor dizendo, Dilma é a candidata de um projeto de nação o qual está funcionando. Campeão de aprovação, o governo petista, a despeito de suas imperfeições, comum em um partido que se constrói dentro de uma democracia, gerou emprego, renda e, por conseguinte, cidadania. Em oito anos, vimos 13 milhões de empregos celetivos gereados, o fortalecimento do poder aquisitivo do povo, a consideração ao patrimônio estatal e aos movimentos sociais. Nenhum outro governo tratou, por exemplo, o MST com certo grau de respeito, apesar da reforma agrária ainda ser um problema brasileiro. Os juros baixaram, lembrando que, na época do nefasto FHC, eles chegaram na casa dos 40%. Deixamos de ser devedores ao FMI e, agora, somos seus credores. Fortalecido, o Brasil empresta dinheiro a quem antes nos via chegar com o pires na mão a mendigar bilhões de dólares.


2 - O governo Lula, cuja a candidatura de Dilma representa um expoente, trouxe seriedade às políticas sociais, entregando ao povo miserável, a possibilidade de fazer suas refeições. O Bolsa-Família é investimento em capital humano, pois obriga as crianças a ficarem na escola, e redistribui, para o povo, uma fatia do que é produzido e arrecadado no país. Reconhece que cidadania não existe, se persiste a desigualdade e a inacessibilidade ao mínimo de dignade de substistência. É dever do Estado, em minha concepção, impedir que seus cidadãos morram de fome. É isso que o Bolsa-Família, de fato, significa.


3 - Em oito anos, FHC, o nefasto, esfarrapou o ensino público superior, com congelamento de salários, profundos cortes de verbas e sucateamento das estruturas físicas do ensino. Quando entrei na Universidade, em 2001, não havia professores, espaço físico, energia elétrica, apoio a pesquisa e, por increça que parível, giz. Agora, oito anos depois, no doutoramento, presenciei o caminho inverso, com passos claudicantes, mas firmes, em direção a um ensino superior mais fortalecido.


4 - Esta é a razão menos importante, posto que é individual. Na minha postagem de apresentação, eu disse que já fui bem pobre. É verdade. Já fui bem pobre. Não me refiro à pobreza extrema, com escassez de víveres, mas a uma profunda diminuição nos padrões de vida de minha família. Após oito anos, FHC, o mais que nefasto, conseguiu reduzir meu estilo de vida ao básico. Isso significou ter comida à mesa, acesso restrito aos meios de transporte (eu me lembro muito bem ter que caminhar mais de uma hora, para poder ir trabalhar, pois, caso contrário, teria que ir caminhando para a universidade). Comprar livros era uma raridade, bem como ir ao cinema, viajar, sair aos fins de semana, entre outros. Para vocês terem uma noção, em oito anos de governo Lula, minha biblioteca passou passou de 30 para 600 exemplares. Alguma coisa mudou em oito anos. Mudou para melhor, porque não sou estúpido e sei perceber as diferenças gritantes.


Dilma Roussef é a continuidade de um projeto que, diferente do pensamento da direita, representada pelo candidato de FHC, o nefasto, reconhece o papel de todos dentro da sociedade. Significa reconhecer que há uma parcela da população excluída do processo produtivo e de distribuição. Significa, mais ainda e a partir disso, inserir setores da sociedade que, outrora, estavam relegados a um grau de cidadão de segunda classe. Dilma é Lula, e Lula é Dilma. Dilma e Lula são o Brasil com o povo. Um Brasil menos injusto, mais ciente das necessidades de seus cidadãos, um Brasil mais sério, mais rico, menos desigual, menos neoliberal, mais social. Em outubro, nas eleições, quero um Brasil decente, quero Dilma presidente.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Vida privada

Conto dedicado a Dôra Limeira, escritora, que aderiu à campanha 2 contos por 1 conto.


Dizem que esta história aconteceu lá pelas bandas do sertão da Paraíba, perto de Cajazeiras, na década de 1940. Conta-se que certa família, os Junqueiras, vivia da criação de cabra e galinhas. Não possuía riqueza e, como todo bom nordestino abençoado pelas privações, não tinha banheiro em casa. Faziam as necessidades no mato, perto do curral das cabras; foi assim durante muitos anos até o dia em que a avó fora picada por uma cascavel e teve que amputar a nádega esquerda. A família, composta de 27 pessoas e cuja a avó era o ente mais velho e mais querido, decidiu dar à pobre senhora o mínimo de dignidade possível, pelo menos na hora das evacuações, no fim de sua vida.

Com muito sacrifício, juntaram dinheiro e contrataram o melhor mestre de obras da região, a fim de que se fizesse, anexo ao casebre, uma latrina. Um pedreiro, que se dizia formado pela Faculdade de Ciências Ocultas e Letras Apagadas, foi chamado para dar início às obras. Encomendaram o melhor material: zinco, para o teto; 1 saco de cimento, para o piso; 100 quilos de cal, para ser usado no lugar de descarga e tábua de macambira, para as paredes. Com parcos recursos, a construção demorou 2 anos e 7 meses para ficar pronta. No dia 12 de agosto, foi marcada a inauguração. A família, satisfeitíssima, matou 10 cabras e 25 galinhas, para um banquete, e chamaram um dos dois vereadores locais, para que este cortasse a fita inaugural. Com muita festa, a latrina foi inaugurada. A avó, muito devota, colocou uma plaquinha na porta, com os seguintes dizeres: "Ao entrar, Deus te acompanhe; ao sair, Deus te abençoe".

Ficou decidido que a primeira pessoa a usar a nova construção seria a velha. Foi aí que começaram os problemas, pois a pobre senhora sofria de constipação e, a despeito das buchadas, sucos de ameixa e quilos de alface, a avó demorou 7 dias para ir ao banheiro. No sétimo dia, de madrugada, a velha sentiu vontade de urinar. Ficou tão feliz, que foi ao banheiro com um terço na mão, rezando uma novena em agradecimento. Ao entrar e se acocarar, ficou tão contente pelo fato de não sentir respingar urina em suas canelas, que teve um ataque cardíaco fulminante e caiu no poço da latrina. Demoraram 43 dias para encontrarem o cadáver da velha, coberto de fezes, dentro do buraco. Uma feliz coincidência, pois a nora viu, depois de defecar, a dentadura da pobre senhora. De início, ficou horrorizada, pois achou que a merda lhe sorria. Só depois de apurar o olhar, viu o corpo da sogra, já em avançado estado de decomposição. Fizeram o velório de caixão fechado, pois, àquela altura, não souberam diferenciar o que era bosta e o que era a velha e, por via das dúvidas, enterraram tudo junto. Um engraçadinho disse que não era um enterro, mas uma descarga. Em respeito à família, o delegado deu voz de prisão ao pilheriador.

A latrina ficou amaldiçoada, desde então. Toda pessoa que ia aliviar a bexiga ou o intestino, ficava presa por, no mínimo, quatro horas. Tanto, que sempre ia fazer as necessidades com uma marmita, para almoço ou jantar, dependendo da hora. A danada da porta parecia abrir-se quando queria. Começaram a dizer que o espírito da velha assombrava o banheiro. Chamaram um padre, que ficou de consultar o Vaticano acerca de tal fato. Semanas depois, o cura chegou dizendo que não poderia exorcizar a latrina, pois a Santa Sé, em seu código canônico, mencionava quartos, salas, cozinhas, quintais e até penicos, mas não fazia menção a latrinas. Recomendou uma rezadeira ou um macumbeiro, que eram quem entendiam daquelas crendices populares. Optaram pela primeira.

Dona Josefa, amiga de infância da falecida senhora, chegou com um galhinho de arruda e um saco de sal grosso. Depois de muita cantoria e conjurações, a idosa solenemente, com a voz da sabedoria que somente incontáveis décadas podem trazer, disse: "Traz o menino mais novo". Sebastiãozinho, o caçula, foi escolhido como cobaia, porque estava há 5 dias sem evacuar. Trancada dentro da latrina, a pobre criança, morta de medo, naturalmente borrou-se toda. Misteriosamente, naquela ocasião, a porta não se trancou sozinha, e encontraram o menino, minutos depois de entrar, banhado na própria merda, lívido de medo. A latrina, de amaldiçoada, passou a ser lugar de peregrinação. Diziam que era milagrosa e curava todos o males: espinhela caída, bico de papagaio, anemia, bicheira, unha encravada e, é claro, prisão de ventre. As pessoas começaram a vir de todas as regiões, para pedir milagres e deixar ex-votos na latrina. Tinha de tudo: orelhas, pernas, barrigas, olhos, miniaturas de casas, de burros e até um pênis, feito de mandioca, depositado por um velho que se curou de impotência e foi pai aos 97 anos. A família, obviamente, aproveitou-se do fato e começou a fazer fortuna. Compraram um penico muito bonito, de porcelana, branco, com uns desenhos de vaquinhas e cabritinhos, e já não usam mais a latrina.

Hoje, se você perguntar aos mais velhos, há, na Paraíba, o lajedo de pai Mateus, a cruz da Menina e a latrina da Velha. Lugar de maravilhas, onde a religiosidade popular encontra sua forma máxima. A velha, agora, espera na fila da beatificação. Dizem que o papa considera seriamente o pedido de passá-la direto à categoria de santa.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Pai e filho

Conto dedicado a Paulo Ewerton, que aderiu à campanha 2 contos por 1 conto.


- Que você quer ser quando crescer?

- Pai! - respondeu, sem pestanejar, Camilinho, aos sete anos.

Para a criança, a paternidade era a melhor coisa do mundo. Amava o pai com todas as forças que seu jovem coração poderia suportar. Amava e era amado. Por isso, acreditava tão cedo, que ser pai era uma vocação, "coisa linda de Deus", como ouvia a avó dizer. O pai, "Seu" José, não era rico e tampouco bonito. Gordo, careca, sempre suado, dentes amarelados pelo cigarro e corpo excessivamente peludo. O amor pelo filho, entretanto, era diretamente proporcional a sua feiúra. Amava tanto aquela criança, que se tornou ateu, pois não entendia como Deus havia dado "seu único filho", para morrer pela humanidade. José sacrificaria o último ser humano, por amor de sua cria. Camilinho sentia esse amor, pois o pai o exalava, como exalava aquele suor que lhe era característico. Crescendo com tão bom exemplo, como poderia não desejar a paternidade?

A despeito da pobreza, pai e filho se sacrificavam um pelo outro. Este não pedindo nada que, comumente, as crianças pedem; aquele matando-se de trabalhar, para dar ao filho aquilo que ele não pedia. A família não jantava, fazia festas. Mesmo com muito trabalho, "Seu" José fazia questão de sentar à mesa com o filho. Era um momento de profunda intimidade, de conversas afetuosas e conselhos. O pai ouvia, com atenção, cada palavra dita pelo seu pequeno, como se a saboreasse junto com o jantar preparado pela esposa.

Por causa desses tempos felizes, Camilinho, agora Camilo, casara-se cedo, aos 19 anos. Manifestou imediatamente à esposa a vontade de ter filhos tão cedo quanto possível. De fato, 3 meses após o casamento, sua mulher engravidou. Camilo recebeu a notícia na hora do almoço, passou mal, ficou tonto e desmaiou. A esposa quase aborta, de tanta preocupação. Passado o susto, Camilo era todo sorrisos. Cantarolava o dia todo, distribuía muitos "bons dias" na rua, cumprimentava desconhecidos e até comprou um adesivo para seu carro: "Bebê a bordo". Quando perguntado se queria menino ou menina, Camilo respondeu que poderia ser qualquer um, que seria bem-vindo. Queria dar amor, queria repetir a infância feliz, queria admirar e ser admirado. Por essa época, "Seu" José já era falecido. Isso, para Camilo, representou uma responsabilidade a mais: deveria perpetuar o pai através de seu filho.

Nove meses depois, a esposa sentiu as dores do parto. Desembestado, Camilo acudiu para a maternidade, sentido, ele também, as contrações da esposa. Seria pai! Camilo não fumava, mas, enquanto esperava o parto, virou uma fogueira de São João, tanta fumaça soltava, pois dera-lhe na telha comprar cigarros. Achou que era um dever paterno encher os pulmões de monóxido de carbono na chegada do primogênito. Parto difícil. Camilo se desesperava, na sala de espera. Viu uma mulher de branco se aproximar e a abordou nervosamente: "E então, enfermeira? Nasceu? Nasceu?". "Não sou enfermeira, moço, sou espírita". Acabaram-se os cigarros, e Camilo começou a roer as unhas. Na nona unha, o médico chegou: "Senhor Camilo? O Senhor teve um menino". Camilo era só lágrimas. Chorou como um bebê. Deve ter chorado, inclusive, mais que seu filho recém-nascido. Sem fôlego, sem forças e sem unhas, Camilo foi encaminhado para o berçário. Ao chegar, através do vidro, uma auxiliar de enfermagem apontou o pequeno bercinho.

Camilo arregalou os olhos. Ficou lívido. As pernas fraquejaram. Teve que se apoiar, para não desabar no chão. Não podia acreditar no que via. Não. Aquele não era seu filho. A criança tinha lábios leporinos! Aquele arremedo de lebre não poderia jamais ser seu filho tão esperado. Jamais! Camilo teve raiva, muita raiva! Esperara anos, e tinha, agora, um ogrinho. Foi pior na hora em que a esposa tentou amamentar a criança. Camilo obersavava, com repulsa e horror, o leite materno escorrer pela fenda labial. Quando a criança se engasgou, Camilo explodiu de raiva, chamou a esposa de maconheira, culpou-a pela má-formação do bebê, acusou-a de ter transado com um coelho, fez um inferno. Deixou o hospital e foi beber.

De madrugada, Camilo voltou ao hospital. Entrou no quarto da esposa e percebeu que o bebezinho dormia ao lado do leito da mulher. Ambos dormiam, na verdade. O jovem esticou o pescoço e observou a criança. Teve nojo. Bêbado de álcool, tristeza e frustração, Camilo aproximou-se do bercinho. De perto, o filho parecia-lhe pior ainda. Silenciosamente, tocou o rosto do filho e sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Em seu coração, tocara o rosto do diabo. Silenciosamente, Camilo pôs a mão espalmada no rosto do bebê e sufocou o próprio filho. Pronto. Estava morto. Agora, poderia sonhar em ser pai novamente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A mãe

Conto dedicado a Ramon Limeira, oficial de chancelaria do Itamaraty, o qual aderiu à campanha 2 contos por 1 conto.



Suzana depositou as flores no túmulo da mãe morta. Há exatos sete anos, sempre nessa data, repetia mecanicamente o ato. Era um hábito anual singelo: no aniversário da morte da Velha, comprava rosas, punha-as sobre o túmulo e ia embora. Simples assim. Naquele dia, entretanto, ela parou, para olhar os jambeiros, que estavam apinhados de frutas. Lembrou-se imediatamente de ter ouvido, na infância, que "o melhor jambo é o dos cemitérios". Achou engraçado aquilo, porque parecia ser verdade. Pensou que gosto teria a última das misérias humana e teve vontade de experimentar uma daquelas frutas. Será que sentiria o gosto da mãe? Se sim, deveria, então, ser amargo e, muito provavelmente, venenoso. Não gostava da Velha. Assim, quebrando sete anos de um ritual meticulosamente repetido, Suzana sentou-se em frente à cova de sua genitora, pela primeira vez.

Aos 39 anos, estava divorciada e não tinha filhos. Perdera o pai muito cedo. Matara-se. Ouvia a Velha dizer que a única herança que o infeliz lhe deixara fora uma filha imprestável e um carro. O mesmo carro que, muitos anos depois, justiçara Suzana. A mulher não entendia o porquê do desprezo da mãe. Deveria ser amada, pois era filha única e, em tudo, lembrava as feições da Velha. Quem não ama o próprio retrato? A mãe era vaidosa. Amava-se por demais. Como não poderia amar aquele pequeno arremedo de si? Suzana se esforçava, desde cedo, para agradar imensamente sua mãe, para receber não amor, mas o mínimo de desprezo possível. Foi a melhor aluna da sala durante toda sua vida escolar, mas a Velha, essa maldita, nunca comparecia às festinhas da escola. De fato, nenhum de seus colegas vira sua mãe. Chamavam-na, por conta disso, de "filha de chocadeira".

Sem o amor materno, Suzana buscava conforto nos livros. Passou a odiar Victor Hugo depois que leu "Os Miseráveis". Não entendia por que Fantine vendera os dentes, para tratar da falsa doença de Cosette, uma vez que sua mãe raramente dava-lhe um sorriso. Tinha raiva dos dentes da Velha. Tanta raiva, que, no velório, às escondidas, retirou a dentadura da morta, a fim de que a desgraçada não ousasse sequer sorrir na sepultura. Em certa ocasião, ganhou, de um namorado, o livro "A mãe", de Gorki. Jogou o folhoso, no lixo, assim que chegou em casa. Agora, odiava a mãe, o autor soviético e o desavisado namorado. Apaixonou-se por Poe, quando leu "O coração denunciador". Chegou a sonhar, por dias, que, no lugar do senhorio assassinado, estava a mãe. Porém, Suzana não tinha instintos assassinos. A despeito do ódio pela Velha, era uma pessoa boa.

Um dia, enquanto estavam jantando, a mãe perguntou quando se casaria, porque "uma mulher solteira, nessa idade, é um fardo para a família". A Velha lhe deu uma idéia. Dezoito meses depois, Suzana estava casada. Dezoito meses depois, Suzana estava divorciada. Descobrira que não poderia ter filhos. No lugar de infelicidade, a mulher recebera a notícia com alegria, pois sentiu que, com isso, quebrava-se uma maldição. Estava finda a possibilidade de ser uma mãe como a Velha. O marido, obviamente, não entendeu e foi procurar um ventre que pudesse fertilizar com sucesso. "Que tenha filhos como um coelho", pensou Suzana. Não se importava. O casamento serviu para tirar-lhe da casa materna. Foi, antes de tudo, uma salvação, uma alforria.

Há exatos sete anos, quando estava no trabalho, Suzana recebeu a notícia da morte da mãe. A Velha saíra no carro deixado pelo pai, e um caminhão, parece, esmagou o veículo contra uma árvore. Ironicamente, um jambeiro. A morte da mãe trouxe um imenso alívio e sete dias de licença do serviço. Foi um dos poucos benefícios que recebera da Velha. Sete dias de descanso. No velório, não derramou uma lágrima e teve que controlar a vontade de cantar. Lembrou-se de Chico Buarque e, mentalmente, cantarolava "Vai passar". Estava livre.

Suzana olhou para o túmulo ao lado. Uma cova simples, com uma cruz azul, de madeira, a inscrição parcialmente desgastada pelo tempo e pelo abandono. "Não sei o quê da Silva", leu Suzana, pois não dava para saber o primeiro nome. Lembrou-se da vaidade da mãe, dos anos de desprezo, da falta de afeto, das palavras amargas, dos abraços ausentes e do amor que nunca recebeu. Levantou-se, retirou as rosas do túmulo da Velha e depositou-as no do "Silva" cerimoniosamente. Suzana nunca mais voltou ao cemitério.

Sobre mim


Comecei o blog despejando textos e esqueci de me apresentar formalmente. Eis-me, então, em linhas gerais:


Moisés Costa Neto, parahybano com sotaque forte, historiador por formação, sociólogo por pós-graduação, ex-evangélico, não sou marido de ninguém, não tenho filhos, mas plantei uma flor no quintal de casa, e, agora, ela floresce loucamente. Vocês precisam vê-la. Filho de pais divorciados, neto de avós falecidos. Todos eles. Nascido em 20 de junho e, como todo bom geminiano, não acredito em horóscopo. Às vezes, gosto mais de Gramática que de História, apesar de me enrolar um tanto na sintaxe, esquecendo as subordinativas, confundindo as coordenativas e usando, com boa constância, as aliterações.

Por increça que parível, tenho preguiça de escrever. Desisto mil vezes de um mesmo texto e escrevo vários ao mesmo tempo. Adoro ler, ler é minha vida. A leitura foi minha irmã mais velha, minha babá e, algumas vezes, minha mãe. Gosto dos oitocentistas: Machado de Assis, Bernardo Guimarães, Aluísio Azevedo, Tolstói, Victor Hugo, Alan Poe. Tenho várias traduções de "Robinson Crusoé", livro que me acompanhou boa parte de minha infância e adolescência, releio-o, pelo menos, uma vez por ano.

Amo meus amigos. Dois em especial, que me inspiram e me põem para cima. Uma está em Campina Grande; outro, em Brasília. Apesar do meu jeito ausente, penso constantemente neles e agradeço à sorte por tê-los sempre comigo, "longe dos olhos, mas perto do coração". Para não ser injusto, lembrarei aqui, de nome, dos mais diletos: Edson, Bia, Mayrinne, Renata, Liliane, Andréia, Uendry, Yoko, George, Igor e Danilo. Vejo-os pouco, mas, naqueles breves momentos, sinto profundo afeto por todos. São parte de mim, parte do que sou e do que quero ser.

Gosto de tatuagens. Tenho quatro e já encomendei a quinta. Se pudesse, faria várias, mas creio que ficaria esteticamente feio. Paro nessa quinta mesmo. Tenho PAVOR de duas coisas: dentistas e ratos. Enfrento o primeiro a cada seis meses, como manda o Ministério da Saúde, e corro do segundo, sem pudor. Gosto de gatos, porque eles não gostam de ratos. Fui adotado por uma poodle de 25 centímetros, a qual me recebe no portão, sempre que chego em casa.

Sou eclético no gosto musical. Ouço de tudo, mas, especialmente, Regina Spektor, Alanis Morissette e Oren Lavie. Gosto do Chico, o Buarque, porque é bom letrista e politicamente de esquerda. Desconheço essas cantoras novas que apareceram por aí: Maria Gadu, Maria do Céu, Maria da Penha, Maria da Silva, entre outras Marias. Vez ou outra, escuto uma música evangélica, pela saudade de meus amigos cristãos. Tenho amigos que são amigos de Cristo. É saudável ter bons contatos.

Sou, como diz um conhecido, um esquerdóide. Votei no Lula duas vezes, votaria a terceira, e, se fôssemos monarquistas, queria que ele fosse nosso rei. Simpatizo com o Partido da Causa Operária, porque respondem com radicalismo ao radicalismo do capital. Sonho com uma sociedade igualitária, com saúde, educação, lazer e trabalho, públicos e de qualidade, para todos. Ouso dizer que sou socialista, meio capenga, meio desiludido, mas ciente do que o capitalismo é capaz. Já fui bem pobre. Andava a pé, porque tinha que escolher entre ir de ônibus para o trabalho ou para a universidade. Hoje, ganho mais que minha mãe.

Professor, nutro, sem demagogia ou hipocrisia, afeto por TODOS os meus alunos, incluindo aqueles que não me dão sossego. Grito, dou carão, expulso de sala, faço sermões montanhescos, pego no pé, mas elogio, trato com cuidado, respeito e rio com eles. Eles me acham rigoroso, grosso, intolerante, mas, no fundo, eles me amam.

Sou um homem apaixonado. Atual e infelizmente não-correspondido. A vida me deu e ela mesma tomou. Sou um Jó no amor, eu diria. Nesse sentido, não sei como será meu futuro. Certamente, encontrarei alguém, caso contrário sempre estarei disposto a segurar vela para os casais de amigos. Sou ciumento e inseguro, pois a infância me deixou uns certos traumas. Sou romântico, de verdade. Mando SMS, escrevo bilhetes, dou flores, levo para jantar, seguro a mão no cinema, sonho com a pessoa, penso na cor das cortinas e programo viagens imaginárias para lugares distantes. Sempre a dois.

Pronto. Minha descrição coube em uns poucos parágrafos, mas, como disse um sábio internacionalmente desconhecido cujo nome não me vem à memória, "definir é limitar". Limitado, cá estou eu, em palavras, para vocês, parcos e diletos leitores.


Grande abraço.



P.S.: Defeitos ficam em um post scriptum. Tenho muitos, e isso basta.

sábado, 3 de julho de 2010

Cigarro

Postagem dedicada a Antonino Stropp, advogado, o qual aderiu à campanha 2 contos por 1 conto. Eis, Antonino, seu pagamento. Obrigado.


Geralda fumava desde os 3 meses de gestação. Sua mãe, quando descobriu que estava grávida, decidiu abandonar alguns vícios: largou o café, a bebida e o marido, mas conservou o cigarro. Na hora do parto, quase esperou que o obstetra dissesse "É um lindo maço de Malboro", mas era uma menina mesmo. Chamou-a Geralda. Desde tenra idade, a família de Geralda era constituída pela mãe, por um tio velho, um papagaio e o monóxido de carbono, além, é claro de uma constante rinite de causas desconhecidas. Na sua casa, poderia faltar pão, mas abundava o cigarro e a bendida rinite.

Quando criança, perambulava, com algumas coleguinhas, pelos botecos, esperando que os bêbados arremessassem as bitucas quase totalmente consumidas, na rua. Ela, então, corria, apanhava a piola e saía sorrindo, com a boca cheia de nicotina e saliva alheia. Por essa idade, fumava escondida, pois a mãe sempre lhe dissera que o cigarro fazia mal. Devia ser alguma mentira, pois, bastava ficar sem fumar, que a matriarca da família ficava com um humor do cão. Entendeu, a partir daí, que, mais que o dinheiro, o cigarro era quem trazia felicidade. Na escola, o vício de Geralda virou referência:

- Sabe a Geralda?
- Que Geralda?
- Uma loira.
- Uma loira?
- É. Uma loira de olhos azuis, cabelos batendo na cintura.
- Geralda... Geralda... Geralda... Lembro não.
- Geralda, uma que fuma pra caramba.
- Aaaah! A Geralda... Que tem ela?
- Foi pega roubando.
- Roubando? O quê? Cigarros?
- Não. Isqueiros.

Quando entrou na adolescência, Geralda queria ser a Audrey Hepburn. Boa atriz, carismática, bonita e FUMANTE. Quando assistia a seus filmes, procurava, nos créditos finais, a marca do cigarro fumado pela atuante principal. Coitada da Geralda. Tinha os créditos de cor, mas desconhecia quase completamente a trama da película. De Natal, ganhou uma piteira de marfim de sua mãe, que estava debilitada por conta de um atropelamento. Morreu em breve, a idosa, porque, na ala do hospital em que a velha ficou internada, não havia área para fumantes. Por conta disso, resolveu padecer em casa, na companhia da família e de um cinzeiro sempre abarrotado de bitucas.

Em seus devaneios, quando não tinha nada para fazer, exceto fumar, enviou, para o Congresso Nacional, uma proposta de criação do Bolsa-Nicotina, a fim de que os fumantes pudessem manter certo estoque para momentos de recessão financeira. Nessa época, a indústria do tabaco tornou-se sua melhor amiga, mas, nem por isso, forneceu-lhe cigarros grátis. Diziam que Geralda era mágica: bastava sacarem um cigarro do bolso, para que ela, inesperadamente, brotasse da terra, com olhar pidão, mão estendida e seu mantra conhecido: "Dá um trago?". Foi por esse tempo que começaram a chamá-la de Fumalda.

Com muito custo, alcatrão, nicotina e monóxido de carbono a 9mg, conseguiu se formar em medicina. Às vezes, assistia às aulas em pé, no corredor, porque era proibido fumar dentro da sala. Na colação de grau, sem querer, incendiou a bata da colega que estava sentada na cadeira ao lado. Foi um corre-corre desgraçado, mas, graças a Deus, Geralda conseguiu salvar a carteira de cigarros, que ainda tinha 17 unidades. Resolveu se especializar em neurologia, e esse foi o maior erro de sua vida. Ficava privada do vício durante cirurgias que poderiam demorar mais de dez horas. Certa feita, não agüentando a situação, antes de um procedimeto, foi conferir os objetos com a instrumentadora cirúrgica:

- Bisturi?
- Ok.
- Tesoura?
- Ok.
- Pinças?
- Ok.
- Afastadores?
- Ok.
- Cinzeiro?
- Hein?!

Sacou um do bolso e começou a incisão na cabeça do pobre infeliz anestesiado. Um corte, um trago, uma punção, outra tragada. Lá pela oitava hora de procedimento, operava o cinzeiro e jogava as cinzas no cérebro exposto do paciente. Obviamente foi demitida. Buscou consolo no sexo, porque, depois do gozo, nada melhor que acender um cigarro. Com esse costume, perdia todos os pretendentes e namorados. Sem emprego, sem amigos, sem namorados, mas sempre com o maldito fumo, decidiu parar. Foi à farmácia, comprou a mais cara pílula que prometia pôr fim ao seu vício. Chegou em casa e teve dificuldades de entender as instruções da bula. Optou pelo método mais fácil: pegou uma cartela, retirou um comprimido, acendeu-o e fumou-o. Foi a melhor tragada que dera na vida.