sábado, 29 de janeiro de 2011

Tempo de (re)nascer

Prezados leitores e leitoras,

Após meses de ausência, preciso confessar-lhes algo de suma importância. Estou sem inspiração. Juro pelas nove musas filhas de Zeus poderoso. Parece-me, e tenho quase certeza, que funciono sob pressão. Então, caríssimos e caríssimas, gostaria de que vocês me dessem os motes de meus escritos. O esquema funcionará da seguinte forma: todo sábado, porei uma pequena enquete com 4 opções de temas, a fim de que a mais votada sirva como ponto de partida para um conto, crônica, dissertação ou narração. No domingo à noite, a alternativa mais escolhida se tornará texto até 48 horas após o resultado.

Espero a participação de todos e todas.

Atenciosamente,

Moisés.

P.S.: As opções, como dito acima, estarão no formato de enquete, no lado direito do layout do blogue.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

2011

Prezados leitores e seguidores,

Como puderam perceber, o blogue ficou temporariamente desativado. Felizmente, uma de minhas resoluções para 2011 é dar continuidade aos meus escritos. Compromote-me com vós outros (adoro esse arcaísmo bíblico) a retomar as atividades literárias em fevereiro deste ano. Enquanto isso, fiquem com essa linda música de Regina Spektor, a qual se enquadra bem neste contexto:


Grande abraço.

Ah! Especial agradecimento a Dora Limeira, uma das mais ilustres leitoras e incentivadores do meu blogue. Querida Dora, suas palavras são como o orvalho que desce sobre a terra seca, fazendo dela verdes pastos. Muito obrigado.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Correio da Hélade

Sem atendimento, mulher dá a luz em estábulo
O pequeno Jesus e sua família posam para nossa reportagem.
Nasceu, na madrugada de ontem, 25 de dezembro de 1, o filho do carpinteiro José e da dona de casa Maria. Esse seria apenas mais um nascimento, se não fosse emblématico do caos na saúde pública que assola nosso país. O pequeno Jesus, como foi batizada a criança, teve que vir ao mundo em um estábulo, pois o casal não conseguiu atendimento médico em nenhuma das maternidades de Belém. Segundo o casal, eles estavam na cidade, a fim de se cadastrarem no censo. José, que sobrevive de prestação de serviço, e sua esposa Maria peregrinaram de hospital em hospital até que a criança veio ao mundo. "Disseram-nos que não havia leitos", afirmou o chefe da família.

Malaquias Ben-Hur, secretário de saúde nomeado pelo Império, disse que a situação está periclitante: "Faltam leitos, os médicos são mal-remunerados e há muitos anos não há concurso público para provimento de vagas", afirmou o secretário. Procurado por nossa reportagem, o representante da capital do Império relatou que as verbas para a saúde aumentaram em trinta mil talentos de ouro somente neste ano e que o nascimento da criança, naquelas condições, havia sido um acontecimento fortuito. Desde que fora criado, o SVS, Salute Vnicvs Sistemi, tem atendido a cerca de 500 mil pessoas mensalmente.

domingo, 18 de julho de 2010

Nova seção: Correio da Hélade

Inauguro aqui mais uma seção em Tempos Interessantes. Correio da Hélade será uma paródia da grande imprensa, espetacularizadora de tragédias pessoais por onde grassam muitos Brunos, João Hélios e Isabelas. A intenção é popularizar, por meio do linguajar superficial das páginas policiais e colunas sociais, os grandes conteúdos das tragédias gregas e, posteriormente, dos fatos históricos de maior relevância. Espero que gostem. Eis, então, nossa primeira reportagem:
Policial: Tragédia e incesto em Tebas
Na foto: Édipo (esquerda), pivô da tragédia, trava diálogo com a esfinge. Imagem de arquivo.

Foi encontrado, na tarde de ontem, o corpo da rainha tebana Jocasta. Segundo informações, a rainha teria se matado após descobrir que casara com o próprio filho. Uma fonte da perícia, que não quis se identificar, informou que Jocasta foi encontrada enforcada em seu quarto e que havia manchas de sangue nos lençóis. Ainda segundo a referida fonte, seu marido foi o primeiro a encontrar seu corpo já sem vida. Desconfia-se que o sangue no quarto seja do rei. Segundo o delegado designado para o caso, Kratos da Silva, "não havia sinais de luta, e o sangue estava relativamente fresco, se comparado com o horário da morte da rainha". A polícia local apreendeu, nas imediações, um cego. Tirésias, como é conhecido, afirmou que não viu nada, o que as autoridades constataram obviamente ser verdade. A testemunha, entretanto, disse que sabia os reais motivos da tragédia e, após prestar esclarecimentos ao escrivão Sófocles, foi liberado pela polícia.

Segundo informações das autoridades locais, baseadas nos depoimentos de Tirésias, a testemunha não-ocular, o suicídio se deu após a rainha tomar conhecimento de que seu marido era, na verdade, seu filho, outrora rejeitado pelo pai e ex-marido da vítima. Édipo, o marido-filho, ainda não foi encontrado para prestar esclarecimentos. Suas três filhas-irmãs também estão desaparecidas, e suspeita-se de seqüestro ou coação. Procurada por nossa reportagem, a família real apenas afirmou que o acontecimento não abalaria o governo de Tebas e que a sucessão do trono ficaria a cargo de Creonte, irmão da rainha morta e, por hora, regente de Tebas. Os filhos homens do casal se recusaram a gravar entrevista. A polícia espera esclarecer completamente o caso em breve.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Eleições 2010


Com a proximidade do pleito que elegerá @ ocupante do cargo máximo do executivo brasileiro, Tempos Interessantes resolveu deixar claro que posicionamento político tomará e os motivos que nos levaram a tal escolha. Eis nossas razões:


1 - Dilma é a candidata de Lula. Melhor dizendo, Dilma é a candidata de um projeto de nação o qual está funcionando. Campeão de aprovação, o governo petista, a despeito de suas imperfeições, comum em um partido que se constrói dentro de uma democracia, gerou emprego, renda e, por conseguinte, cidadania. Em oito anos, vimos 13 milhões de empregos celetivos gereados, o fortalecimento do poder aquisitivo do povo, a consideração ao patrimônio estatal e aos movimentos sociais. Nenhum outro governo tratou, por exemplo, o MST com certo grau de respeito, apesar da reforma agrária ainda ser um problema brasileiro. Os juros baixaram, lembrando que, na época do nefasto FHC, eles chegaram na casa dos 40%. Deixamos de ser devedores ao FMI e, agora, somos seus credores. Fortalecido, o Brasil empresta dinheiro a quem antes nos via chegar com o pires na mão a mendigar bilhões de dólares.


2 - O governo Lula, cuja a candidatura de Dilma representa um expoente, trouxe seriedade às políticas sociais, entregando ao povo miserável, a possibilidade de fazer suas refeições. O Bolsa-Família é investimento em capital humano, pois obriga as crianças a ficarem na escola, e redistribui, para o povo, uma fatia do que é produzido e arrecadado no país. Reconhece que cidadania não existe, se persiste a desigualdade e a inacessibilidade ao mínimo de dignade de substistência. É dever do Estado, em minha concepção, impedir que seus cidadãos morram de fome. É isso que o Bolsa-Família, de fato, significa.


3 - Em oito anos, FHC, o nefasto, esfarrapou o ensino público superior, com congelamento de salários, profundos cortes de verbas e sucateamento das estruturas físicas do ensino. Quando entrei na Universidade, em 2001, não havia professores, espaço físico, energia elétrica, apoio a pesquisa e, por increça que parível, giz. Agora, oito anos depois, no doutoramento, presenciei o caminho inverso, com passos claudicantes, mas firmes, em direção a um ensino superior mais fortalecido.


4 - Esta é a razão menos importante, posto que é individual. Na minha postagem de apresentação, eu disse que já fui bem pobre. É verdade. Já fui bem pobre. Não me refiro à pobreza extrema, com escassez de víveres, mas a uma profunda diminuição nos padrões de vida de minha família. Após oito anos, FHC, o mais que nefasto, conseguiu reduzir meu estilo de vida ao básico. Isso significou ter comida à mesa, acesso restrito aos meios de transporte (eu me lembro muito bem ter que caminhar mais de uma hora, para poder ir trabalhar, pois, caso contrário, teria que ir caminhando para a universidade). Comprar livros era uma raridade, bem como ir ao cinema, viajar, sair aos fins de semana, entre outros. Para vocês terem uma noção, em oito anos de governo Lula, minha biblioteca passou passou de 30 para 600 exemplares. Alguma coisa mudou em oito anos. Mudou para melhor, porque não sou estúpido e sei perceber as diferenças gritantes.


Dilma Roussef é a continuidade de um projeto que, diferente do pensamento da direita, representada pelo candidato de FHC, o nefasto, reconhece o papel de todos dentro da sociedade. Significa reconhecer que há uma parcela da população excluída do processo produtivo e de distribuição. Significa, mais ainda e a partir disso, inserir setores da sociedade que, outrora, estavam relegados a um grau de cidadão de segunda classe. Dilma é Lula, e Lula é Dilma. Dilma e Lula são o Brasil com o povo. Um Brasil menos injusto, mais ciente das necessidades de seus cidadãos, um Brasil mais sério, mais rico, menos desigual, menos neoliberal, mais social. Em outubro, nas eleições, quero um Brasil decente, quero Dilma presidente.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Vida privada

Conto dedicado a Dôra Limeira, escritora, que aderiu à campanha 2 contos por 1 conto.


Dizem que esta história aconteceu lá pelas bandas do sertão da Paraíba, perto de Cajazeiras, na década de 1940. Conta-se que certa família, os Junqueiras, vivia da criação de cabra e galinhas. Não possuía riqueza e, como todo bom nordestino abençoado pelas privações, não tinha banheiro em casa. Faziam as necessidades no mato, perto do curral das cabras; foi assim durante muitos anos até o dia em que a avó fora picada por uma cascavel e teve que amputar a nádega esquerda. A família, composta de 27 pessoas e cuja a avó era o ente mais velho e mais querido, decidiu dar à pobre senhora o mínimo de dignidade possível, pelo menos na hora das evacuações, no fim de sua vida.

Com muito sacrifício, juntaram dinheiro e contrataram o melhor mestre de obras da região, a fim de que se fizesse, anexo ao casebre, uma latrina. Um pedreiro, que se dizia formado pela Faculdade de Ciências Ocultas e Letras Apagadas, foi chamado para dar início às obras. Encomendaram o melhor material: zinco, para o teto; 1 saco de cimento, para o piso; 100 quilos de cal, para ser usado no lugar de descarga e tábua de macambira, para as paredes. Com parcos recursos, a construção demorou 2 anos e 7 meses para ficar pronta. No dia 12 de agosto, foi marcada a inauguração. A família, satisfeitíssima, matou 10 cabras e 25 galinhas, para um banquete, e chamaram um dos dois vereadores locais, para que este cortasse a fita inaugural. Com muita festa, a latrina foi inaugurada. A avó, muito devota, colocou uma plaquinha na porta, com os seguintes dizeres: "Ao entrar, Deus te acompanhe; ao sair, Deus te abençoe".

Ficou decidido que a primeira pessoa a usar a nova construção seria a velha. Foi aí que começaram os problemas, pois a pobre senhora sofria de constipação e, a despeito das buchadas, sucos de ameixa e quilos de alface, a avó demorou 7 dias para ir ao banheiro. No sétimo dia, de madrugada, a velha sentiu vontade de urinar. Ficou tão feliz, que foi ao banheiro com um terço na mão, rezando uma novena em agradecimento. Ao entrar e se acocarar, ficou tão contente pelo fato de não sentir respingar urina em suas canelas, que teve um ataque cardíaco fulminante e caiu no poço da latrina. Demoraram 43 dias para encontrarem o cadáver da velha, coberto de fezes, dentro do buraco. Uma feliz coincidência, pois a nora viu, depois de defecar, a dentadura da pobre senhora. De início, ficou horrorizada, pois achou que a merda lhe sorria. Só depois de apurar o olhar, viu o corpo da sogra, já em avançado estado de decomposição. Fizeram o velório de caixão fechado, pois, àquela altura, não souberam diferenciar o que era bosta e o que era a velha e, por via das dúvidas, enterraram tudo junto. Um engraçadinho disse que não era um enterro, mas uma descarga. Em respeito à família, o delegado deu voz de prisão ao pilheriador.

A latrina ficou amaldiçoada, desde então. Toda pessoa que ia aliviar a bexiga ou o intestino, ficava presa por, no mínimo, quatro horas. Tanto, que sempre ia fazer as necessidades com uma marmita, para almoço ou jantar, dependendo da hora. A danada da porta parecia abrir-se quando queria. Começaram a dizer que o espírito da velha assombrava o banheiro. Chamaram um padre, que ficou de consultar o Vaticano acerca de tal fato. Semanas depois, o cura chegou dizendo que não poderia exorcizar a latrina, pois a Santa Sé, em seu código canônico, mencionava quartos, salas, cozinhas, quintais e até penicos, mas não fazia menção a latrinas. Recomendou uma rezadeira ou um macumbeiro, que eram quem entendiam daquelas crendices populares. Optaram pela primeira.

Dona Josefa, amiga de infância da falecida senhora, chegou com um galhinho de arruda e um saco de sal grosso. Depois de muita cantoria e conjurações, a idosa solenemente, com a voz da sabedoria que somente incontáveis décadas podem trazer, disse: "Traz o menino mais novo". Sebastiãozinho, o caçula, foi escolhido como cobaia, porque estava há 5 dias sem evacuar. Trancada dentro da latrina, a pobre criança, morta de medo, naturalmente borrou-se toda. Misteriosamente, naquela ocasião, a porta não se trancou sozinha, e encontraram o menino, minutos depois de entrar, banhado na própria merda, lívido de medo. A latrina, de amaldiçoada, passou a ser lugar de peregrinação. Diziam que era milagrosa e curava todos o males: espinhela caída, bico de papagaio, anemia, bicheira, unha encravada e, é claro, prisão de ventre. As pessoas começaram a vir de todas as regiões, para pedir milagres e deixar ex-votos na latrina. Tinha de tudo: orelhas, pernas, barrigas, olhos, miniaturas de casas, de burros e até um pênis, feito de mandioca, depositado por um velho que se curou de impotência e foi pai aos 97 anos. A família, obviamente, aproveitou-se do fato e começou a fazer fortuna. Compraram um penico muito bonito, de porcelana, branco, com uns desenhos de vaquinhas e cabritinhos, e já não usam mais a latrina.

Hoje, se você perguntar aos mais velhos, há, na Paraíba, o lajedo de pai Mateus, a cruz da Menina e a latrina da Velha. Lugar de maravilhas, onde a religiosidade popular encontra sua forma máxima. A velha, agora, espera na fila da beatificação. Dizem que o papa considera seriamente o pedido de passá-la direto à categoria de santa.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Pai e filho

Conto dedicado a Paulo Ewerton, que aderiu à campanha 2 contos por 1 conto.


- Que você quer ser quando crescer?

- Pai! - respondeu, sem pestanejar, Camilinho, aos sete anos.

Para a criança, a paternidade era a melhor coisa do mundo. Amava o pai com todas as forças que seu jovem coração poderia suportar. Amava e era amado. Por isso, acreditava tão cedo, que ser pai era uma vocação, "coisa linda de Deus", como ouvia a avó dizer. O pai, "Seu" José, não era rico e tampouco bonito. Gordo, careca, sempre suado, dentes amarelados pelo cigarro e corpo excessivamente peludo. O amor pelo filho, entretanto, era diretamente proporcional a sua feiúra. Amava tanto aquela criança, que se tornou ateu, pois não entendia como Deus havia dado "seu único filho", para morrer pela humanidade. José sacrificaria o último ser humano, por amor de sua cria. Camilinho sentia esse amor, pois o pai o exalava, como exalava aquele suor que lhe era característico. Crescendo com tão bom exemplo, como poderia não desejar a paternidade?

A despeito da pobreza, pai e filho se sacrificavam um pelo outro. Este não pedindo nada que, comumente, as crianças pedem; aquele matando-se de trabalhar, para dar ao filho aquilo que ele não pedia. A família não jantava, fazia festas. Mesmo com muito trabalho, "Seu" José fazia questão de sentar à mesa com o filho. Era um momento de profunda intimidade, de conversas afetuosas e conselhos. O pai ouvia, com atenção, cada palavra dita pelo seu pequeno, como se a saboreasse junto com o jantar preparado pela esposa.

Por causa desses tempos felizes, Camilinho, agora Camilo, casara-se cedo, aos 19 anos. Manifestou imediatamente à esposa a vontade de ter filhos tão cedo quanto possível. De fato, 3 meses após o casamento, sua mulher engravidou. Camilo recebeu a notícia na hora do almoço, passou mal, ficou tonto e desmaiou. A esposa quase aborta, de tanta preocupação. Passado o susto, Camilo era todo sorrisos. Cantarolava o dia todo, distribuía muitos "bons dias" na rua, cumprimentava desconhecidos e até comprou um adesivo para seu carro: "Bebê a bordo". Quando perguntado se queria menino ou menina, Camilo respondeu que poderia ser qualquer um, que seria bem-vindo. Queria dar amor, queria repetir a infância feliz, queria admirar e ser admirado. Por essa época, "Seu" José já era falecido. Isso, para Camilo, representou uma responsabilidade a mais: deveria perpetuar o pai através de seu filho.

Nove meses depois, a esposa sentiu as dores do parto. Desembestado, Camilo acudiu para a maternidade, sentido, ele também, as contrações da esposa. Seria pai! Camilo não fumava, mas, enquanto esperava o parto, virou uma fogueira de São João, tanta fumaça soltava, pois dera-lhe na telha comprar cigarros. Achou que era um dever paterno encher os pulmões de monóxido de carbono na chegada do primogênito. Parto difícil. Camilo se desesperava, na sala de espera. Viu uma mulher de branco se aproximar e a abordou nervosamente: "E então, enfermeira? Nasceu? Nasceu?". "Não sou enfermeira, moço, sou espírita". Acabaram-se os cigarros, e Camilo começou a roer as unhas. Na nona unha, o médico chegou: "Senhor Camilo? O Senhor teve um menino". Camilo era só lágrimas. Chorou como um bebê. Deve ter chorado, inclusive, mais que seu filho recém-nascido. Sem fôlego, sem forças e sem unhas, Camilo foi encaminhado para o berçário. Ao chegar, através do vidro, uma auxiliar de enfermagem apontou o pequeno bercinho.

Camilo arregalou os olhos. Ficou lívido. As pernas fraquejaram. Teve que se apoiar, para não desabar no chão. Não podia acreditar no que via. Não. Aquele não era seu filho. A criança tinha lábios leporinos! Aquele arremedo de lebre não poderia jamais ser seu filho tão esperado. Jamais! Camilo teve raiva, muita raiva! Esperara anos, e tinha, agora, um ogrinho. Foi pior na hora em que a esposa tentou amamentar a criança. Camilo obersavava, com repulsa e horror, o leite materno escorrer pela fenda labial. Quando a criança se engasgou, Camilo explodiu de raiva, chamou a esposa de maconheira, culpou-a pela má-formação do bebê, acusou-a de ter transado com um coelho, fez um inferno. Deixou o hospital e foi beber.

De madrugada, Camilo voltou ao hospital. Entrou no quarto da esposa e percebeu que o bebezinho dormia ao lado do leito da mulher. Ambos dormiam, na verdade. O jovem esticou o pescoço e observou a criança. Teve nojo. Bêbado de álcool, tristeza e frustração, Camilo aproximou-se do bercinho. De perto, o filho parecia-lhe pior ainda. Silenciosamente, tocou o rosto do filho e sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Em seu coração, tocara o rosto do diabo. Silenciosamente, Camilo pôs a mão espalmada no rosto do bebê e sufocou o próprio filho. Pronto. Estava morto. Agora, poderia sonhar em ser pai novamente.