Conto dedicado a Dôra Limeira, escritora, que aderiu à campanha
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Dizem que esta história aconteceu lá pelas bandas do sertão da Paraíba, perto de Cajazeiras, na década de 1940. Conta-se que certa família, os Junqueiras, vivia da criação de cabra e galinhas. Não possuía riqueza e, como todo bom nordestino abençoado pelas privações, não tinha banheiro em casa. Faziam as necessidades no mato, perto do curral das cabras; foi assim durante muitos anos até o dia em que a avó fora picada por uma cascavel e teve que amputar a nádega esquerda. A família, composta de 27 pessoas e cuja a avó era o ente mais velho e mais querido, decidiu dar à pobre senhora o mínimo de dignidade possível, pelo menos na hora das evacuações, no fim de sua vida.
Com muito sacrifício, juntaram dinheiro e contrataram o melhor mestre de obras da região, a fim de que se fizesse, anexo ao casebre, uma latrina. Um pedreiro, que se dizia formado pela Faculdade de Ciências Ocultas e Letras Apagadas, foi chamado para dar início às obras. Encomendaram o melhor material: zinco, para o teto; 1 saco de cimento, para o piso; 100 quilos de cal, para ser usado no lugar de descarga e tábua de macambira, para as paredes. Com parcos recursos, a construção demorou 2 anos e 7 meses para ficar pronta. No dia 12 de agosto, foi marcada a inauguração. A família, satisfeitíssima, matou 10 cabras e 25 galinhas, para um banquete, e chamaram um dos dois vereadores locais, para que este cortasse a fita inaugural. Com muita festa, a latrina foi inaugurada. A avó, muito devota, colocou uma plaquinha na porta, com os seguintes dizeres: "Ao entrar, Deus te acompanhe; ao sair, Deus te abençoe".
Ficou decidido que a primeira pessoa a usar a nova construção seria a velha. Foi aí que começaram os problemas, pois a pobre senhora sofria de constipação e, a despeito das buchadas, sucos de ameixa e quilos de alface, a avó demorou 7 dias para ir ao banheiro. No sétimo dia, de madrugada, a velha sentiu vontade de urinar. Ficou tão feliz, que foi ao banheiro com um terço na mão, rezando uma novena em agradecimento. Ao entrar e se acocarar, ficou tão contente pelo fato de não sentir respingar urina em suas canelas, que teve um ataque cardíaco fulminante e caiu no poço da latrina. Demoraram 43 dias para encontrarem o cadáver da velha, coberto de fezes, dentro do buraco. Uma feliz coincidência, pois a nora viu, depois de defecar, a dentadura da pobre senhora. De início, ficou horrorizada, pois achou que a merda lhe sorria. Só depois de apurar o olhar, viu o corpo da sogra, já em avançado estado de decomposição. Fizeram o velório de caixão fechado, pois, àquela altura, não souberam diferenciar o que era bosta e o que era a velha e, por via das dúvidas, enterraram tudo junto. Um engraçadinho disse que não era um enterro, mas uma descarga. Em respeito à família, o delegado deu voz de prisão ao pilheriador.
A latrina ficou amaldiçoada, desde então. Toda pessoa que ia aliviar a bexiga ou o intestino, ficava presa por, no mínimo, quatro horas. Tanto, que sempre ia fazer as necessidades com uma marmita, para almoço ou jantar, dependendo da hora. A danada da porta parecia abrir-se quando queria. Começaram a dizer que o espírito da velha assombrava o banheiro. Chamaram um padre, que ficou de consultar o Vaticano acerca de tal fato. Semanas depois, o cura chegou dizendo que não poderia exorcizar a latrina, pois a Santa Sé, em seu código canônico, mencionava quartos, salas, cozinhas, quintais e até penicos, mas não fazia menção a latrinas. Recomendou uma rezadeira ou um macumbeiro, que eram quem entendiam daquelas crendices populares. Optaram pela primeira.
Dona Josefa, amiga de infância da falecida senhora, chegou com um galhinho de arruda e um saco de sal grosso. Depois de muita cantoria e conjurações, a idosa solenemente, com a voz da sabedoria que somente incontáveis décadas podem trazer, disse: "Traz o menino mais novo". Sebastiãozinho, o caçula, foi escolhido como cobaia, porque estava há 5 dias sem evacuar. Trancada dentro da latrina, a pobre criança, morta de medo, naturalmente borrou-se toda. Misteriosamente, naquela ocasião, a porta não se trancou sozinha, e encontraram o menino, minutos depois de entrar, banhado na própria merda, lívido de medo. A latrina, de amaldiçoada, passou a ser lugar de peregrinação. Diziam que era milagrosa e curava todos o males: espinhela caída, bico de papagaio, anemia, bicheira, unha encravada e, é claro, prisão de ventre. As pessoas começaram a vir de todas as regiões, para pedir milagres e deixar ex-votos na latrina. Tinha de tudo: orelhas, pernas, barrigas, olhos, miniaturas de casas, de burros e até um pênis, feito de mandioca, depositado por um velho que se curou de impotência e foi pai aos 97 anos. A família, obviamente, aproveitou-se do fato e começou a fazer fortuna. Compraram um penico muito bonito, de porcelana, branco, com uns desenhos de vaquinhas e cabritinhos, e já não usam mais a latrina.
Hoje, se você perguntar aos mais velhos, há, na Paraíba, o lajedo de pai Mateus, a cruz da Menina e a latrina da Velha. Lugar de maravilhas, onde a religiosidade popular encontra sua forma máxima. A velha, agora, espera na fila da beatificação. Dizem que o papa considera seriamente o pedido de passá-la direto à categoria de santa.